praticamente não tive nenhuma nota diferente de dez nos meus primeiros anos escolares. era um bom menino, daqueles que toda professora se orgulha. mais ainda, tinha um fascínio por ser considerado o mais inteligente da sala. queria todas as estrelinhas e medalhas.
na terceira série, havia o campeonato de tabuada. uma vez por semana, a professora entregava uma folha em branco para cada aluno, perguntava dez multiplicações aleatórias, uma a cada trinta segundos, aproximadamente, e recolhia. quem acertasse mais ao final do mês seria consagrado como o grande campeão. e eu era completamente imbatível.
nunca entendi essa faceta dos meus primeiros anos de vida. talvez seja como diz luigi tenco, “era apaixonado por você porque não tinha nada melhor pra fazer”.
foi um ano depois, na quarta série, que as coisas começaram a mudar. eu já era considerado “crítico” por alguns dos meus amigos, e a ordem foi se deteriorando dentro de mim. surgia o completo rebelde, que rejeita qualquer tipo de lei, de regra, de necessidade. tudo que é pré-definido, não presta. só gosto daquilo que eu possa fazer do meu jeito.
daí em diante, minha vida escolar nunca mais foi a mesma. colecionava suspensões. o garoto que era o orgulho de toda professora agora era o terror. e o fascínio por ser o mais inteligente da sala se tornara o fascínio por ser o mais transgressor. o importante era pensar em novos e mais revolucionários métodos de sabotar as aulas e impedir que qualquer forma daquele conhecimento tacanho fosse transmitido aos pobres coleguinhas.
o maior problema eram as exatas. tinha um resultado certo, uma resposta única? eu não queria, então. dava soluções absurdas de propósito. entregava respostas erradas sabendo que estavam erradas, tirava zero por tirar zero. sem ter nenhuma vontade de aprender. sem querer ser mais um na multidão.
pra mim, dois mais dois nunca foi quatro.
não é difícil de se imaginar que eu cheguei aos quinze anos como um projeto de guerrilheiro de esquerda, contestador de todas as instituições do mundo. que me recusava veementemente a ir no mcdonald’s ou a usar um tênis da nike. que procurava associações de juventude revolucionária. que continuava colecionando suspensões na escola.
na faculdade, os engenheiros eram motivo de piada. limitados em suas contas, incapazes de pensar além do papel. e então, o mundo acadêmico. onde ninguém tem liberdade de pensamento. onde você é obrigado a concordar com todos os teóricos que vieram antes de você. a citá-los. a estudá-los. em regras, em normas mínimas. em detalhes na pontuação, na nomenclatura e nas siglas.
o mundo acadêmico é o maior cerceamento de pensamento existente, enquanto deveria ser justamente o contrário. onde as pessoas deveriam ter livre pensamento. onde as pessoas deveriam tomar lsd para pensar sobre o cinema coreano, em vez de se debruçar sobre livros de mil e quinhentos anos atrás.
querem que todo mundo engula que dois mais dois é quatro. sem contestar.
por isso eu escolhi logo cedo o cinema. um pouco depois, a escrita. e depois, o pôquer. escolhi como minhas paixões. como meus ofícios.
porque se eu quiser que, num filme, num texto ou numa jogada minha, dois mais dois seja igual a cinco, eu faço. simplesmente faço. se quiser que seja igual a nove, também faço.
e o mundo seria muito mais legal sem leis. como num apocalipse zumbi.